Apesar de não ver por onde ia conseguia ouvir o barulho da multidão e o brilho das luzes estava também mais perto. Ao contornar uma das últimas casas antes da rua principal algo veio contra mim deitando-me ao chão. Durante alguns segundos paralisei sem saber o que tinha acontecido. Ergui o olhar e reparei que estava alguém tombado à minha frente e, entre nós, uma pilha de livros espalhados. Quem me tinha derrubado apressou-se a levantar, pegando em seguida no meu braço para me ajudar no mesmo processo.
– Peço desculpa. Estás bem? – perguntou num tom preocupado mas quase melodioso.
– Sim, sim… – a forma rude como falara e sacudia a minha roupa fez o rapaz que se encontrava à minha frente afastar-se.
Baixou-se para pegar nos livros que deixara cair e eu fiz o mesmo para pegar o meu caderno. O meu olhar cruzou-se com o dele enquanto ambos alcançámos o mesmo objecto. O seu olhar, num tom avelã, era gentil e o seu toque suave. A barba que lhe emoldurava o rosto conferia-lhe um ar atraente e o seu cabelo, num tom um pouco mais claro que o meu, estava completamente desalinhado devido à queda e a franja caía-lhe para a frente do rosto. Um segundo passou até ambos nos apercebermos que ele segurava a minha mão em vez do caderno visto que eu tinha sido mais rápido. Baixou o olhar rapidamente e afastou a mão pegando nos restantes livros e cadernos, mas não antes de me aperceber de como perfeitas eram as suas mãos. – Desculpa – pediu uma vez mais. – Com tanta coisa nas mãos nem vi para onde ia.
– Eu é que peço desculpa. Ia tão empenhado na leitura que nem vi onde punha os pés.
Levantámo-nos ao mesmo tempo e ele tentou equilibrar todos os livros e cadernos nos braços.
– Bem, mais uma vez desculpa – disse começando a afastar-se.
– Sem problemas – respondi com um sorriso.
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